Mounjaro perde massa muscular? O que o estudo mediu

Perde massa magra, sim. No estudo com densitometria do SURMOUNT-1, cerca de 25% do peso perdido com tirzepatida foi massa magra em 72 semanas, a mesma proporção do grupo placebo. Massa magra não é só músculo, e a evidência ainda não permite afirmar nem descartar perda muscular relevante.
O peso cai rápido, a roupa fica larga — e vem a dúvida que aparece em toda conversa sobre caneta emagrecedora: o Mounjaro perde massa muscular? Perde massa magra, sim, e o estudo principal mediu quanto. Mas o número que mais importa não é esse: é a comparação com quem emagreceu sem o remédio, e o que ainda não se sabe sobre força e função.
A resposta curta
No estudo com densitometria do SURMOUNT-1, cerca de 25% do peso perdido com tirzepatida foi massa magra e 75% foi gordura, em 72 semanas. A proporção foi a mesma no grupo que tomou placebo, que emagreceu bem menos.
Massa magra não é sinônimo de músculo, e uma metanálise de 2026 concluiu que a evidência ainda é insuficiente para afirmar ou descartar perda muscular relevante. O treino de força é a estratégia estudada para proteger o músculo — e a decisão sobre o remédio é sempre do médico.
O que o estudo principal mediu
O SURMOUNT-1 é o grande ensaio da tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro, em pessoas com obesidade ou sobrepeso. Dentro dele, 160 dos 2.539 participantes fizeram densitometria (DXA), o exame que separa gordura, massa magra e osso, no início e na semana 72. Os resultados foram publicados em 2025 na Diabetes, Obesity and Metabolism.
| Mudança em 72 semanas | Tirzepatida | Placebo |
|---|---|---|
| Peso | −21,3% | −5,3% |
| Gordura | −33,9% | −8,2% |
| Massa magra | −10,9% | −2,6% |
| Do peso perdido, quanto foi massa magra | cerca de 25% | cerca de 25% |
Dois pontos mudam a leitura desses números.
O primeiro: a proporção foi igual nos dois grupos. Quem emagreceu com placebo — ou seja, com as orientações de estilo de vida do estudo — também perdeu cerca de um quarto do peso em massa magra. O remédio fez perder mais peso, e por isso mais massa magra em quilos, mas não mudou a divisão entre gordura e massa magra.
O segundo: essa proporção se manteve parecida na maioria dos subgrupos analisados pelos autores, incluindo por sexo, por faixa de idade — com um grupo de 65 anos ou mais — e por quanto peso a pessoa perdeu.
Massa magra não é a mesma coisa que músculo
Aqui está a confusão mais comum. O DXA mede "massa magra" como tudo o que não é gordura nem osso — e isso inclui muito mais que músculo.
Uma revisão de 2024, também na Diabetes, Obesity and Metabolism, explica que a massa magra inclui, além do músculo, órgãos, líquidos e a água presente no próprio tecido de gordura. Quando alguém perde muita gordura, parte dessa água vai junto, e o exame registra como perda de massa magra.
A mesma revisão aponta que os estudos com esses remédios mostram números muito diferentes entre si: em alguns, a massa magra respondeu por 40% a 60% do peso perdido; em outros, por 15% ou menos. As diferenças de população, de remédio e de doenças associadas ajudam a explicar a variação.
E um achado que tranquiliza, com ressalva: estudos com ressonância magnética sugerem que a redução do músculo tende a ser proporcional ao que se esperaria pela idade, pela doença e pelo peso perdido, e que a gordura infiltrada no músculo diminui — o que os autores interpretam como uma possível melhora de qualidade. Eles mesmos fazem a ressalva: idade mais avançada e doença mais grave podem aumentar o risco de sarcopenia, a perda de massa e força muscular com a idade, explicada em sarcopenia, o que é.
E a força, cai?
Perder massa magra preocupa por um motivo: força e autonomia. E aqui o dado disponível vem de outro remédio da mesma família, a semaglutida.
O estudo SEMALEAN, publicado em 2026 na Diabetes, Obesity and Metabolism, acompanhou 106 pacientes com obesidade tratados com semaglutida por 12 meses, com DXA e teste de força de preensão da mão:
| Medida | O que aconteceu |
|---|---|
| Peso | −10% em 7 meses e −13% em 12 meses |
| Gordura | −14% em 7 meses e −18% em 12 meses |
| Massa magra | Caiu cerca de 3 kg até o 7º mês e depois estabilizou |
| Força de preensão | Aumentou 4,5 kg em 12 meses |
| Obesidade sarcopênica | Caiu de 49% para 33% dos pacientes |
É um estudo sem grupo de comparação e com outro princípio ativo, então não prova o que acontece com a tirzepatida. Mas ele mostra algo importante: perder massa magra não significou perder força nesse grupo.
O que ainda não se sabe
Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 reuniu 19 estudos sobre mudanças de composição corporal com essa classe de remédios. As conclusões são cautelosas:
- Havia poucos estudos com grupo de comparação — só dois para a quantidade de músculo.
- Os resultados eram muito diferentes entre si, e a certeza da evidência foi classificada como baixa a muito baixa.
- A qualidade do músculo não pôde ser somada numa análise, por falta de padronização.
A frase final dos autores resume o momento: redução de massa magra não deve ser interpretada como sinônimo de sarcopenia, mas a evidência também é insuficiente para descartar perda muscular clinicamente relevante em pessoas mais vulneráveis.
Ou seja: nem "o Mounjaro destrói músculo", nem "não precisa se preocupar". A resposta honesta é que o assunto ainda está sendo estudado.
O que o exercício muda

Ainda não há ensaio grande publicado testando musculação durante o uso de tirzepatida para medir o músculo. Existe um em andamento: o LEAN-PREP, cujo protocolo foi publicado em 2026 no BMJ Open, vai sortear 232 adultos que começam semaglutida ou tirzepatida entre controle, exercício resistido, aumento de proteína ou os dois, por 6 meses, medindo o músculo da coxa por ressonância. O exercício previsto é feito em casa, três vezes por semana, e os autores incluem força e função física entre as medidas.
O que já existe é um ensaio com outro remédio da família. Publicado em 2021 no New England Journal of Medicine, ele acompanhou 195 adultos por um ano depois de uma perda de peso inicial, em quatro grupos: exercício, remédio (liraglutida), os dois juntos ou placebo.
- No peso, em relação ao placebo, o grupo do exercício ficou 4,1 kg abaixo, o do remédio 6,8 kg e o combinado 9,5 kg.
- O grupo combinado reduziu o percentual de gordura em 3,9 pontos — cerca do dobro do grupo só de exercício e do grupo só do remédio.
- Só o grupo combinado melhorou a sensibilidade à insulina e o condicionamento cardiorrespiratório.
O exercício desse estudo era de intensidade moderada a vigorosa, não especificamente musculação, e o remédio não era a tirzepatida. Ainda assim, ele reforça a direção: remédio e exercício juntos entregaram mais do que cada um sozinho. Como começar um treino de força com segurança depois dos 60 está em exercício depois dos 60: por onde começar.
Quem deve prestar mais atenção
A revisão de 2024 aponta dois grupos em que a perda de massa magra merece mais cuidado: pessoas mais velhas e pessoas com doenças mais graves. Nelas, o risco de sarcopenia pesa mais na escolha de quem é bom candidato ao tratamento.
Se você usa ou pensa em usar o remédio, três conversas fazem sentido com o médico que acompanha o tratamento:
- Se vale medir a composição corporal, e não só o peso.
- Se a força está sendo acompanhada — por exemplo, com teste de preensão.
- Como encaixar treino de força e alimentação no plano.
Dose, ajuste e interrupção do remédio são decisões médicas. Nenhuma delas deve ser tomada com base em artigo — nem neste.
O que este artigo não responde
Quanto músculo, especificamente, a tirzepatida faz perder. O DXA mede massa magra, que inclui água e órgãos; a ressonância, mais precisa, foi usada em poucos estudos.
Se o treino de força evita a perda durante o uso da tirzepatida. O ensaio que vai responder isso ainda está em andamento.
O que acontece com a massa magra depois que o remédio é interrompido. Os estudos citados aqui mediram a composição do corpo durante o tratamento, não depois dele.
Se você deve usar, parar ou mudar o remédio. Isso é decisão do seu médico. Para quem é personal e atende aluno em uso do remédio, o assunto está em aluno usando Mounjaro: o que muda no treino.
O resumo em cinco linhas
- Com tirzepatida, cerca de 25% do peso perdido foi massa magra em 72 semanas — a mesma proporção do placebo.
- Massa magra inclui água e órgãos; não é o mesmo que músculo.
- Com semaglutida, a massa magra caiu e estabilizou, e a força de preensão subiu.
- Uma metanálise de 2026 diz que a evidência é insuficiente para afirmar ou descartar perda muscular relevante.
- Remédio e exercício juntos entregaram mais que cada um sozinho, num ensaio de um ano.
Emagrecer com o remédio e manter a força precisa de treino acompanhado
Antes: o peso cai toda semana, mas ninguém sabe se a força está indo junto, e o treino é o mesmo de quando você começou.
Depois: a ficha parte da sua anamnese, cada série fica registrada, e a queda ou a manutenção da carga aparece na comparação das semanas.
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Referências
- Look M, Dunn JP, Kushner RF, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025. 160 participantes com DXA.
- Neeland IJ, Linge J, Birkenfeld AL. Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2024.
- Alissou M, Demangeat T, Folope V, et al. Impact of Semaglutide on fat mass, lean mass and muscle function in patients with obesity: The SEMALEAN study. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026. 106 pacientes.
- Lopes Menezes ML, Güntzel Chiappa ME, Kloss RF, et al. Body Composition Remodelling During GLP-1-Based Therapy: A Systematic Review and Meta-Analysis Using a Hierarchical Physiological Framework. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026. 19 estudos.
- Lundgren JR, Janus C, Jensen SBK, et al. Healthy Weight Loss Maintenance with Exercise, Liraglutide, or Both Combined. New England Journal of Medicine, 2021. 195 participantes.
- Alawadhi AA, Alroudhan D, Alsaeed DJ, et al. LEAN mass Preservation with Resistance Exercise and Protein during semaglutide and tirzepatide therapy (LEAN-PREP study): a protocol for a randomised controlled trial. BMJ Open, 2026.
Antes de decidir qualquer coisa
Este texto é informativo e não substitui consulta. Nenhuma informação aqui serve como recomendação para o seu caso: quem pode avaliar o seu histórico, seus exames e o que é seguro para você é um médico, um nutricionista ou um profissional de educação física registrado. Quem escreve e revisa este blog não é profissional de saúde habilitado.
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