Exercício para idoso fortalecer as pernas: o que funciona

Revisado por Gabriel Totino10 min de leitura
Mulher idosa agachando com um elástico nas pernas, ao ar livre

Treino de força progressivo, 2 a 3 vezes por semana, melhorou a força e a capacidade de levantar da cadeira em idosos, numa revisão com 121 ensaios, inclusive depois dos 80 anos. Para prevenir quedas, a evidência forte é para equilíbrio e exercícios funcionais, de preferência junto com força.

Levantar do sofá apoiando nos braços, subir escada segurando no corrimão, ter medo de cair na calçada. A perna fraca é uma das primeiras coisas que a idade cobra — e a busca por exercício para idoso fortalecer as pernas costuma vir de um filho preocupado ou do próprio idoso. A boa notícia vem de estudos com milhares de pessoas: o músculo responde em qualquer idade. A notícia menos conhecida é que força sozinha não basta para evitar quedas.

A resposta curta

O treino de força melhora a força das pernas e a capacidade de levantar da cadeira em idosos, segundo uma revisão da Cochrane com 121 ensaios e 6.700 participantes. Funciona inclusive depois dos 80 anos, e num estudo clássico com pessoas de 90, a força mais que dobrou em 8 semanas.

Para prevenir quedas, porém, o que teve evidência forte foram os exercícios de equilíbrio e funcionais — e a combinação deles com força. A orientação da OMS para quem tem 65 anos ou mais é juntar os dois, em 3 ou mais dias por semana.

Por que a força das pernas importa tanto

Uma revisão sistemática publicada em 2010 no BMJ reuniu estudos com dezenas de milhares de pessoas e olhou para medidas simples de capacidade física: força de preensão da mão, velocidade de caminhada, tempo para levantar da cadeira e equilíbrio em pé.

O resultado foi consistente: quem ia pior nesses testes tinha mais risco de morrer no período acompanhado. Na velocidade de caminhada, por exemplo, o quarto mais lento teve risco quase três vezes maior que o quarto mais rápido, já descontados idade, sexo e tamanho corporal.

É importante ler com cuidado: são estudos de associação. Eles não provam que treinar a perna faz viver mais. Mostram que levantar da cadeira e caminhar bem são sinais valiosos da saúde de quem é mais velho — e esses sinais dependem, em boa parte, da força das pernas.

O que o treino de força faz

Execução da cadeira extensora

A revisão da Cochrane de 2009 sobre treino de força progressivo em idosos é a maior do tema. Na maioria dos 121 ensaios, o treino era feito 2 a 3 vezes por semana e em intensidade alta.

ResultadoO que a revisão encontrou
Força muscularEfeito grande (73 ensaios)
Levantar da cadeiraMelhora moderada a grande (11 ensaios)
Velocidade de caminhadaMelhora modesta, de 0,08 metro por segundo (24 ensaios)
Capacidade física geralMelhora pequena, mas significativa (33 ensaios)
Dor em quem tem artroseRedução (6 ensaios)

Os autores concluem que o treino de força é uma intervenção eficaz para melhorar a função física de idosos, incluindo atividades simples e complexas do dia a dia. Quem tem artrose no joelho encontra o assunto detalhado em artrose no joelho pode fazer musculação.

Nunca é tarde: os dados com quem tem 75, 80 e 90 anos

Uma dúvida comum é se depois de certa idade ainda vale a pena. Uma metanálise publicada em 2020 na Sports Medicine olhou só para ensaios com pessoas de 75 anos ou mais — 22 estudos.

  • O treino de força aumentou a força muscular com efeito grande.
  • No subgrupo de 80 anos ou mais, o efeito na força foi ainda maior.
  • O tamanho do músculo também aumentou.
  • Houve poucos relatos de efeitos adversos ligados ao treino.

E há o estudo que mudou a forma de ver o assunto, publicado em 1990 no JAMA. Dez moradores de uma instituição de longa permanência, frágeis, com 90 anos em média, fizeram 8 semanas de treino de força de alta intensidade.

MedidaResultado em 8 semanas
Força+174% em média, nos 9 que completaram
Área do músculo da coxa+9%
Velocidade da marcha em linha+48%

Eram só 10 pessoas, e os resultados não podem ser generalizados sem cuidado. Mas eles mostraram que o músculo de quem tem 90 anos ainda responde ao treino — algo que muita gente, na época, duvidava. O que é a perda de músculo com a idade, e por que ela acelera, está em sarcopenia, o que é.

Força sozinha não evita quedas

Aqui está o ponto que quase nenhum texto sobre "fortalecer as pernas" conta.

A revisão da Cochrane de 2019 sobre prevenção de quedas reuniu 108 ensaios com 23.407 idosos vivendo em casa, com idade média de 76 anos. O resultado geral é animador: o exercício reduziu a taxa de quedas em 23%, com evidência de alta certeza.

Mas o tipo de exercício fez diferença:

Tipo de exercícioEfeito na taxa de quedasCerteza
Equilíbrio e funcionais−24%Alta
Vários tipos combinados (em geral equilíbrio + força)−34%Moderada
Tai chi−19%Baixa
Principalmente força, sem equilíbrioEfeito incerto—

A tradução prática: fortalecer as pernas é importante para levantar, andar e subir escada. Para não cair, o treino precisa incluir equilíbrio — e a combinação dos dois foi a que mais reduziu quedas. O exercício também pode ter reduzido fraturas causadas por queda, com evidência de baixa certeza.

Um teste simples para acompanhar a força das pernas

O CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos, usa um teste de 30 segundos no programa STEADI, voltado à prevenção de quedas em idosos. Ele mede força e resistência das pernas e pode ser repetido de tempos em tempos para ver a evolução.

Como o CDC descreve o teste:

  • Uma cadeira de encosto reto, sem braços, com assento de cerca de 43 cm de altura, e um cronômetro.
  • A pessoa senta no meio da cadeira, com os braços cruzados sobre o peito e os pés apoiados no chão.
  • No "já", ela levanta até ficar totalmente em pé e senta de novo, repetindo por 30 segundos.
  • Conta-se quantas vezes ela ficou totalmente em pé. Se precisar usar os braços para levantar, o teste para e o resultado é zero.
  • O CDC orienta que alguém fique ao lado da pessoa, por segurança.
IdadeAbaixo da média — homensAbaixo da média — mulheres
60 a 64menos de 14menos de 12
65 a 69menos de 12menos de 11
70 a 74menos de 12menos de 10
75 a 79menos de 11menos de 10
80 a 84menos de 10menos de 9
85 a 89menos de 8menos de 8
90 a 94menos de 7menos de 4

Segundo o CDC, um resultado abaixo da média indica risco de queda. O teste não é diagnóstico: é um sinal para conversar com o médico e para acompanhar se o treino está fazendo diferença.

Que tipo de exercício os estudos usaram

Isto descreve o que foi testado, não é uma ficha para o seu caso.

  • Treino de força progressivo: exercícios com máquinas, pesos ou elásticos, em que a carga aumenta conforme a pessoa fica mais forte. Foi o que a Cochrane de 2009 analisou.
  • Intensidade: na maioria dos ensaios, alta — e, mesmo assim, os eventos graves foram raros, como mostra a seção de cuidados logo abaixo.
  • Equilíbrio e exercícios funcionais: movimentos do dia a dia, como levantar e sentar, e exercícios que desafiam a estabilidade em pé. Foram os mais eficazes contra quedas.
  • Frequência: 2 a 3 vezes por semana nos ensaios de força; a OMS recomenda, para quem tem 65 anos ou mais, atividade com ênfase em equilíbrio e força em 3 ou mais dias por semana.

Quem está começando do zero encontra o passo a passo inicial em exercício depois dos 60: por onde começar.

Os cuidados que os estudos registram

A revisão da Cochrane de 2009 registrou queixas musculares e articulares, como dor nas articulações e dor muscular, em vários estudos que acompanharam esses efeitos. Eventos graves foram raros, e nenhum foi atribuído diretamente ao exercício.

Os autores fazem, porém, uma ressalva: os efeitos adversos foram mal registrados em muitos ensaios, e é preciso cautela ao levar esses programas para pessoas com doenças específicas.

Por isso, quem tem pressão alta, osteoporose, doença do coração ou qualquer condição em tratamento deve conversar com o médico antes de começar. Alguns desses casos já têm artigo próprio: hipertensão pode fazer musculação e osteoporose pode fazer musculação.

O que este artigo não responde

Quais exercícios servem para você ou para seu familiar. Depende de saúde, dores, medicamentos e do quanto a pessoa já consegue fazer.

Se o treino faz viver mais. Os estudos que ligam força à mortalidade mostram associação, não causa.

Se treinar só força previne quedas. A Cochrane de 2019 classificou esse efeito como incerto; a combinação com equilíbrio teve resultado melhor.

O resumo em cinco linhas

  • Treino de força teve efeito grande na força e moderado a grande para levantar da cadeira, em 121 ensaios.
  • Funciona depois dos 75 e dos 80 anos; aos 90, a força mais que dobrou em 8 semanas.
  • Exercício reduziu 23% das quedas — mais com equilíbrio e funcionais.
  • Força sem equilíbrio teve efeito incerto contra quedas; a combinação chegou a −34%.
  • A OMS recomenda equilíbrio e força em 3 ou mais dias por semana depois dos 65.
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Referências

  1. Liu CJ, Latham NK. Progressive resistance strength training for improving physical function in older adults. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2009. 121 ensaios, 6.700 participantes.
  2. Grgic J, Garofolini A, Orazem J, et al. Effects of Resistance Training on Muscle Size and Strength in Very Elderly Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Sports Medicine, 2020. 22 estudos.
  3. Fiatarone MA, Marks EC, Ryan ND, et al. High-intensity strength training in nonagenarians. Effects on skeletal muscle. JAMA, 1990. 10 participantes.
  4. Sherrington C, Fairhall NJ, Wallbank GK, et al. Exercise for preventing falls in older people living in the community. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019. 108 ensaios, 23.407 participantes.
  5. Cooper R, Kuh D, Hardy R, et al. Objectively measured physical capability levels and mortality: systematic review and meta-analysis. BMJ, 2010.
  6. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). STEADI — Assessment: 30-Second Chair Stand. 2017.
  7. Bull FC, Al-Ansari SS, Biddle S, et al. World Health Organization 2020 guidelines on physical activity and sedentary behaviour. British Journal of Sports Medicine, 2020.

Antes de decidir qualquer coisa

Este texto é informativo e não substitui consulta. Nenhuma informação aqui serve como recomendação para o seu caso: quem pode avaliar o seu histórico, seus exames e o que é seguro para você é um médico, um nutricionista ou um profissional de educação física registrado. Quem escreve e revisa este blog não é profissional de saúde habilitado.

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